Me fascina nas crianças é não terem medo de ultrapassar limites. Tenho observado bastante o comportamento delas diante das dificuldades, das certezas, dos perigos e me deslumbrado cada reação.
Não importa qual o objeto de observação e a serventia dele. Tudo é desafiado, desmontado, equilibrado para atender a curiosidade dos pequenos de saber quais as possibilidades - além das que já existem - que aquilo poderá lhes oferecer.
No meio do processo, surge a interferência dos pais e tios - avós, não - para mostrar a maneira "correta" de se fazer as coisas. As asas começam a serem cortadas e as vontades interrompidas. Será que é nesse momento que a nossa criatividade começa a ser podada?
Começamos a nos influenciar nas opções que temos, nas escolhas que fazemos, pois temos uma referência, mesmo que distorcida, do que se deve fazer. Tudo passa a ser um tabu: quais cores podemos usar, que formas são apropriadas de se exibir, as palavras que não podem ser ditas.
Criamos um universo proibido e inapropriado. Quando adolescentes passamos a refletir, a discutir e desafiar o por quê disso tudo. Já adultos, estamos prontos e condicionados a pensar como uma maioria vazia e cheia de regras pré definidas.
A partir daí, a vida nos mostra que estamos prontos para trilhar o caminho inverso. Vimos exemplos de todas as formas, lemos alguns manuais, observamos comportamentos e passamos a reestruturar nossas ideias. Temos que forçar nossa memória, vontade e lembranças para que possamos desenvolver algo que realmente mude nossas mentes tão acinzentadas, mesmo tendo passado tempo demais.
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Registros
Todos com os tripés armados e câmeras apontadas para o Morro Dois Irmãos. Era final da tarde, o sol já estava se pondo e um vento forte, gelado, fazia o equipamento tremer tanto quanto nós mesmos. Tenho por mim que a escolha do horário foi intencional, para termos aquele gostinho de uma saída fotográfica vários contras.
O Arpoador é lindo, realmente. Ainda mais para mim, que mesmo sendo carioca e já tendo andando por grande parte do Rio, nunca tinha parado para observar mais atentamente. Só o conhecia de dentro da janela de algum transporte e sempre com muita pressa.
Como em todas as praias, esta também é bem democrática. Enquanto alguns bebiam champagne com direito à taça e balde de gelo, outros vendiam bugigangas em cima de tapetes coloridos estendidos na calçada. Turistas, moradores, ambulantes. Todos.
Assim que sacamos as máquinas fotográficas de nossas bolsas, passamos a ser personagens secundários naquele cenário - Até porque não dá para competir irmamente com o Dois Irmãos - Trocadilhos, à parte, como éramos numerosos e com equipamentos nada discretos, começamos a despertar a curiosidade dos demais, sem distinção.
Foi curioso ver que, estimulados por nós, bastou apenas um tirar o celular ou a compacta do bolso para que todos repetissem a ação. Parecia cena de final filme onde o elenco principal chama os figurantes para fazerem aquela dancinha ridícula, só que bem mais interessante e emocionante, já que cada um fez o registro daquele momento com sua visão particular e única.
Um congestionamento de flashs, cliques, poses e sorrisos. Eramos o plano de fundo e os personagens principais. Os maestros daquele momento tão singular.
O Arpoador é lindo, realmente. Ainda mais para mim, que mesmo sendo carioca e já tendo andando por grande parte do Rio, nunca tinha parado para observar mais atentamente. Só o conhecia de dentro da janela de algum transporte e sempre com muita pressa.
Como em todas as praias, esta também é bem democrática. Enquanto alguns bebiam champagne com direito à taça e balde de gelo, outros vendiam bugigangas em cima de tapetes coloridos estendidos na calçada. Turistas, moradores, ambulantes. Todos.
Assim que sacamos as máquinas fotográficas de nossas bolsas, passamos a ser personagens secundários naquele cenário - Até porque não dá para competir irmamente com o Dois Irmãos - Trocadilhos, à parte, como éramos numerosos e com equipamentos nada discretos, começamos a despertar a curiosidade dos demais, sem distinção.
Foi curioso ver que, estimulados por nós, bastou apenas um tirar o celular ou a compacta do bolso para que todos repetissem a ação. Parecia cena de final filme onde o elenco principal chama os figurantes para fazerem aquela dancinha ridícula, só que bem mais interessante e emocionante, já que cada um fez o registro daquele momento com sua visão particular e única.
Um congestionamento de flashs, cliques, poses e sorrisos. Eramos o plano de fundo e os personagens principais. Os maestros daquele momento tão singular.
sábado, 18 de agosto de 2012
Iniciar. Desligar. Fim.
Criamos mundos perfeitos. É ótimo ter essa capacidade. Nem que seja somente na nossa imaginação, eles existem. Até que uma alma caridosa criou a internet e, enfim, estamos todos aqui reunidos; reinventando, de uma forma um pouquinho mais palpável, nossas maravilhas.
Reunimos, nas mais diversas plataformas, nossas conquistas, sonhos e futuras - e concretas - realizações. Como também coisas que nunca teremos, que nunca seremos, que nunca criamos e que nunca tínhamos pensado anteriormente. No lindo mundo do imaginário humano apoiado pela nossa querida internet, personalidades são criadas e sustentadas por máscaras de perfeição.
Não que isso seja sinônimo de falsidade, longe disso! Quem não quer viver em um mundo onde se pode manipular, coordenar, mexer em todas as peças em benefício próprio sem que altere a vida de outros propriamente? Cada universo criado é alterado a gosto de freguês e é compartilhado onde e quando este julgar mais adequado.
A grande sacada é descobrir se, quando o off é apertado e o on da Real Life é acionado, estes mesmos criativos, instruídos e opinativos se mantém da mesma maneira, ou se essa máscara da realidade imaginada cai, tornando-se comuns seres que estudam, que trabalham e que, por vezes, não tem nem uma vida social decente a ser mostrada.
No conforto da cadeira do computador, tudo. Fora dela, a personalidade forte e a auto-estima se dissipam em um clique. Aqueles grandes amigos desaparecem quando a luz se apaga. Longas conversas na madrugada se transformam-se em "ois" tímidos frutos de acasos.
O preocupante é quando uma vida inteira depende de luz, tela, bateria. Se resume a compartilhamentos, até interessantes, mas que não se tem arquivados no cérebro para serem usados em lugares reais com pessoas reais. Uma vida solitária rodeada de seguidores. Uma vida concreta cercada de ninguém.
Reunimos, nas mais diversas plataformas, nossas conquistas, sonhos e futuras - e concretas - realizações. Como também coisas que nunca teremos, que nunca seremos, que nunca criamos e que nunca tínhamos pensado anteriormente. No lindo mundo do imaginário humano apoiado pela nossa querida internet, personalidades são criadas e sustentadas por máscaras de perfeição.
Não que isso seja sinônimo de falsidade, longe disso! Quem não quer viver em um mundo onde se pode manipular, coordenar, mexer em todas as peças em benefício próprio sem que altere a vida de outros propriamente? Cada universo criado é alterado a gosto de freguês e é compartilhado onde e quando este julgar mais adequado.
A grande sacada é descobrir se, quando o off é apertado e o on da Real Life é acionado, estes mesmos criativos, instruídos e opinativos se mantém da mesma maneira, ou se essa máscara da realidade imaginada cai, tornando-se comuns seres que estudam, que trabalham e que, por vezes, não tem nem uma vida social decente a ser mostrada.
No conforto da cadeira do computador, tudo. Fora dela, a personalidade forte e a auto-estima se dissipam em um clique. Aqueles grandes amigos desaparecem quando a luz se apaga. Longas conversas na madrugada se transformam-se em "ois" tímidos frutos de acasos.
O preocupante é quando uma vida inteira depende de luz, tela, bateria. Se resume a compartilhamentos, até interessantes, mas que não se tem arquivados no cérebro para serem usados em lugares reais com pessoas reais. Uma vida solitária rodeada de seguidores. Uma vida concreta cercada de ninguém.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Choro de alegria
Um nó na garganta. Uma palpitação no peito. Um sorriso largo e despretensioso. E quase que imperceptível, aquela lágrima, que não se fez questão nenhuma de segurar, já percorreu por todo o rosto. Sem sentir nenhum incômodo daquele toque suave passando bem devagarzinho sobre a pele, sem nenhuma vergonha de expressar o sentimento profundo. Está entregue.
Mesmo com todos os contras, uma beleza intensa aflora. Como se o brilho que surge quando a luz reflete na lágrima viesse de uma camada escondida. Não há medo se ser julgado pela consequência ou pela causa. Nariz vermelho, olhos inchados, rosto molhado. Uma ligação, uma surpresa, um acontecimento. Não importa.
Depois do ápice, a queda. O sorriso se mantém, mas o coração acalmou e o nó se foi. Os dedos adormecem de tanto enxugar os vestígios das lágrimas. Falta o ar. Hora de respirar fundo, agradecer e esperar para que aquele momento se repita o mais breve possível. Já passou.
Mesmo com todos os contras, uma beleza intensa aflora. Como se o brilho que surge quando a luz reflete na lágrima viesse de uma camada escondida. Não há medo se ser julgado pela consequência ou pela causa. Nariz vermelho, olhos inchados, rosto molhado. Uma ligação, uma surpresa, um acontecimento. Não importa.
Depois do ápice, a queda. O sorriso se mantém, mas o coração acalmou e o nó se foi. Os dedos adormecem de tanto enxugar os vestígios das lágrimas. Falta o ar. Hora de respirar fundo, agradecer e esperar para que aquele momento se repita o mais breve possível. Já passou.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Tempos modernos
O mundo está tão moderno, tão avançado, tão tecnológico, mas em um processo de regressão. Só irei pontuar um deles, pois é um fato que incomoda a mim e a tantos outros jovens que buscam seu lugarzinho ao sol. E o que não falta é sombra, meu caro.
Voltando um pouquinho no tempo, para um outro século não muito distante, eis que acontece a tal revolução que fez com que as fábricas entrassem em um ritmo frenético de produção. Como Chaplin mostra no filme Tempos Modernos, cada trabalhador exercia uma única função, o que acelerava o processo de fabricação e, por outro lado, alienava e restringia os funcionários fabris.
Anos e mais anos se passaram. A educação ficou mais acessível, logo a profissionalização e a capacitação para cargos mais complexos chegaram à grande maioria. Assim, clareiras se abriam e o sol surgia na cabeça de mais alguns "sortudos".
A concorrência começou a ficar mais forte. São muitos iguais e, alguns desses, com certas vantagens. Especializações, cursos, cursos, cursos, pós, mestrados, doutorados... Quanto mais diferenciados, mais iguais ficamos. Quanto mais conhecimento, mais a lista de tarefas a serem desenvolvidas cresce nas entrelinhas das vagas disponíveis no mercado.
Hoje, ao contrário da Revolução Industrial, empresas querem funcionários tão multiuso que, caso consigam exercer todas as funções que foram designadas, o trabalho só iria terminar, quiçá, em um mês. Buscam por pessoas inexistentes, pois os múltiplos talentos quase não encaixam entre si.
Não que as empresas sejam o lado negro, já que também tem seus problemas administrativos e financeiros. O governo, como também os trabalhadores, são culpados por esse sufocamento trabalhístico, mas isso é assunto para outro post.
Partindo do princípio de quem vos escreve, sinto que tenho a liberdade de compartilhar um pouco de onde me encaixo nisso tudo. Me formei em jornalismo, senti faltava algo que me completasse e parti para a fotografia; e na necessidade aprofundar em tratamento de imagem, mergulhei no design. Todo esse caminho foi escolhido por conta própria, o que me satisfazia e me preenchia em determinados momentos.
Quando resolvo olhar os cargos aproximados dos meus estudos que estão disponíveis percebo que, além do que já faço, ainda tenho que saber malabares, colocar a cabeça na boca do leão e jogar amendoim para cima e pegar com a boca, metaforicamente, claro.
Jornalistas, hoje, precisam ser programadores, diagramadores, designers, além de exercerem todas as funções de repórter, cinegrafista e fotógrafo ao mesmo tempo. Perde-se na qualidade. Perde-se tempo. Perde-se trabalho.
Somos sempre ensinados a focar, ter objetivo e expectativas, mas isto custa caro financeiramente e intelectualmente. A frustração de não conseguir se encaixar por falta de conteúdo, sendo que você já te carga suficiente para encarar um mercado desigual e sufocador é constante. Sentida por mim e por tantos outros.
Os lugares ao sol estão se fechando novamente. As árvores sombrias ocupam o rosto da grande maioria. E fica a dúvida: De qual revolução estamos nos aproximando?
Voltando um pouquinho no tempo, para um outro século não muito distante, eis que acontece a tal revolução que fez com que as fábricas entrassem em um ritmo frenético de produção. Como Chaplin mostra no filme Tempos Modernos, cada trabalhador exercia uma única função, o que acelerava o processo de fabricação e, por outro lado, alienava e restringia os funcionários fabris.
Anos e mais anos se passaram. A educação ficou mais acessível, logo a profissionalização e a capacitação para cargos mais complexos chegaram à grande maioria. Assim, clareiras se abriam e o sol surgia na cabeça de mais alguns "sortudos".
A concorrência começou a ficar mais forte. São muitos iguais e, alguns desses, com certas vantagens. Especializações, cursos, cursos, cursos, pós, mestrados, doutorados... Quanto mais diferenciados, mais iguais ficamos. Quanto mais conhecimento, mais a lista de tarefas a serem desenvolvidas cresce nas entrelinhas das vagas disponíveis no mercado.
Hoje, ao contrário da Revolução Industrial, empresas querem funcionários tão multiuso que, caso consigam exercer todas as funções que foram designadas, o trabalho só iria terminar, quiçá, em um mês. Buscam por pessoas inexistentes, pois os múltiplos talentos quase não encaixam entre si.
Não que as empresas sejam o lado negro, já que também tem seus problemas administrativos e financeiros. O governo, como também os trabalhadores, são culpados por esse sufocamento trabalhístico, mas isso é assunto para outro post.
Partindo do princípio de quem vos escreve, sinto que tenho a liberdade de compartilhar um pouco de onde me encaixo nisso tudo. Me formei em jornalismo, senti faltava algo que me completasse e parti para a fotografia; e na necessidade aprofundar em tratamento de imagem, mergulhei no design. Todo esse caminho foi escolhido por conta própria, o que me satisfazia e me preenchia em determinados momentos.
Quando resolvo olhar os cargos aproximados dos meus estudos que estão disponíveis percebo que, além do que já faço, ainda tenho que saber malabares, colocar a cabeça na boca do leão e jogar amendoim para cima e pegar com a boca, metaforicamente, claro.
Jornalistas, hoje, precisam ser programadores, diagramadores, designers, além de exercerem todas as funções de repórter, cinegrafista e fotógrafo ao mesmo tempo. Perde-se na qualidade. Perde-se tempo. Perde-se trabalho.
Somos sempre ensinados a focar, ter objetivo e expectativas, mas isto custa caro financeiramente e intelectualmente. A frustração de não conseguir se encaixar por falta de conteúdo, sendo que você já te carga suficiente para encarar um mercado desigual e sufocador é constante. Sentida por mim e por tantos outros.
Os lugares ao sol estão se fechando novamente. As árvores sombrias ocupam o rosto da grande maioria. E fica a dúvida: De qual revolução estamos nos aproximando?
